domingo, 15 de maio de 2011

Bem-aventurada Dulce dos Pobres


Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo de Salvador, BA

Florianópolis estava em festa. Na manhã daquele dia 18 de outubro de 1991, o Papa João Paulo II presidiu a beatificação de Amabile Visintainer, mais conhecida como Madre Paulina. No final de sua homilia, o Papa afirmou: “O Brasil precisa de santos!”. Olhando para a multidão que tinha diante de si, acrescentou, espontaneamente: “De muitos santos!”
Dois dias depois, João Paulo II visitava Salvador pela segunda vez. Agora, era a capital baiana que se encontrava em festa. Naquele dia 20 de outubro de 1991, contudo, faltava alguém no aeroporto, para acolher o Papa: lá não estava a Irmãzinha frágil e delicada que parecia poder ser levada por um leve vento, e que ele conhecera em 1980. Irmã Dulce, a Mãe dos Pobres, não pode ir a seu encontro, porque estava acamada. Então, ele, o Papa, é que a visitou. Não eram comuns tais visitas; não porque João Paulo II não as desejasse; sua agenda, e mais ainda por ocasião de visitas pelo mundo, não lhe permitia fazer tudo o de que gostaria. Mas o fato é que João Paulo II queria ver Irmã Dulce, encorajá-la e abençoá-la. É possível que nem ele mesmo se lembrasse das palavras que dissera àquela Irmãzinha, no dia 7 de julho de 1980, ao final da Missa campal, diante de meio milhão de pessoas: “Continue, Irmã Dulce, continue!” Como lembrar-se, também, do que dissera ao “Anjo Bom do Brasil”, na despedida do Aeroporto? “Continue, irmã, mas cuide da sua saúde. É necessário que a senhora se poupe um pouco mais!” É de se perguntar se a própria Irmã Dulce se recordou dessa advertência, depois da visita. Se levarmos em conta seu comportamento e a maneira como continuou a dedicar-se a seus irmãozinhos necessitados, concluiremos que deve ter-se lembrado, sim, da primeira parte da advertência: “Continue, Irmã...” Mas da segunda – “cuide da sua saúde” –, possivelmente entendeu assim: depois de cuidar da saude daqueles que tanto sofrem por falta de recursos, deverei cuidar também da minha saude...”
Voltemos ao dia 20 de outubro de 1991. Respirando e falando com dificuldade, e vendo o Papa aos pés de sua cama, Irmã Dulce pediu-lhe perdão por não poder recebê-lo da maneira como gostaria. A resposta do Papa foi dupla: uma à frente da Mãe dos Pobres, sintetizada num aperto de mãos, em palavras de encorajamento para que ela soubesse suportar com amor aquele momento e numa bênção; outra, foi a observação que fez ao Cardeal Primaz Dom Lucas Moreira Neves, ao deixar o quarto: “Esse é o sofrimento do inocente. Igual àquele de Jesus”. Sim, “o Brasil precisa de muitos santos!”
Dia 22 de maio próximo, Salvador viverá um momento histórico. O nome da cidade, “Salvador”, e a palavra “História” se confundem muitas vezes. A História do Brasil não só passa por aqui, mas aqui há referências únicas dos caminhos que levaram o Brasil a ser o que é hoje. O que viveremos na tarde do próximo dia 22 será inesquecível, pois o Parque de Exposições, na Avenida Paralela, testemunhará um fato raro na vida desta cidade: a beatificação de alguém que o povo já havia declarado santa.
Momentos históricos são assim: você participa deles e só depois toma consciência de que aquele momento foi decisivo, foi único, e, por isso mesmo, será sempre lembrado por todos, a ponto de ser registrado na História. Por isso, dia 22 você não poderá deixar de estar lá, enriquecendo aquela celebração com sua presença e vivendo um momento do qual nunca mais se esquecerá. Para viver momentos assim, enfrenta-se qualquer dificuldade ou sacrifício. Somente os que lá estiverem poderão dizer a si mesmos, a seus descendentes e amigos: “Eu estive lá!” Em ocasiões como essa, Deus costuma derramar graças especiais. Quem conheceu Irmã Dulce, sua insistência e seu poder de persuasão quando estavam em jogo aqueles que ela amava, pode imaginar quanto intercederá por quem for participar de um momento que nada acrescentará à sua glória diante de Deus, mas que muito beneficiará a quem, para a glória desse mesmo Deus, estiver presente quando, pela primeira vez, ela for invocada como: “Bem-aventurada Dulce dos Pobres”...

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